António da Silva Moreira


                                                

Quem entra no Cemitério Paroquial de Moreira pela porta principal, reparará na existência de uma capela funerária encimada por uma estátua de corpo inteiro. Foi mandada edificar por António da Silva Moreira, e é hoje pertença da Junta de Freguesia. António da Silva Moreira foi provavelmente o mais importante dos «Brasileiros» moreirenses e dono da Casa do Torre, no Largo da Feira. O Pe. Joaquim Antunes de Azevedo traça-lhe uma breve biografia de onde respigamos esta citação:

«Quem reedificou esta casa […] foi o Exmo. Sr. António da Silva Moreira para aqui residir com sua irmã, viúva […] fazendo aqui vários melhoramentos, como casas, ramadas, engenho de tirar água, vinha, que aqui plantou, dando em poucos anos (três ou quatro) seis pipas de excelente vinho. […] O Exmo. Comendador Moreira foi um dos Brasileiros mais ricos das nossas terras, cuja fortuna foi toda granjeada por si à custa de muitos suores, fadigas, trabalhos e até com perigos da própria vida lá por essas terras de além-mar, e mesmo depois de voltar à sua pátria não tem cessado de trabalhar, porque sempre foi um homem laborioso, valente, arrojado e destemido. Foi em seu principio criado com poucos meios […] até que se resolveu a pedir a seu pai para ir para o Brasil onde o esperava a fortuna e os perigos e trabalhos, vencendo estes, mediante Deus, e ficou com aquela que muito bem sabe empregar como foi com os importantes reparos da Igreja de Moreira principalmente em madeiramento do corpo da Igreja e Capella Mor e telhados, onde gastou para cima de dous contos de reis. […] Tem o Exmo. Comendador Moreira bons prédios na rua de Malmerendas da cidade do Porto e em S. João da Foz, sendo um dos maiores contribuintes da cidade do Porto, assim como seu genro e sobrinho Joaquim Soares”.

António da Silva Moreira protagoniza a vida de Moreira desde os fins de setenta do século XIX, constrói o seu jazigo (aspeto muito importante e de grande valor simbólico) em 1883, tendo-o concluído com a colocação da sua estátua em 1884. Uma curiosidade interessante marca este homem. A obra de maior destaque do Conselheiro Luís de Magalhães foi, sem sombra de dúvida, «O Brasileiro Soares». Com prefácio de Eça de Queirós, é baseada em palcos e personagens moreirenses. Passada sobretudo entre a própria Quinta do Mosteiro, as Guardeiras e o Largo da Feira de Pedras Rubras, visita também lugares como Maia, Bouças, Soutelo, Portela, etc. O livro foi publicado em 1886, tendo sido concluído com toda a certeza alguns meses antes, e tendo sido escrito provavelmente também durante os princípios de oitenta do século XIX. António da Silva Moreira tem um percurso muito idêntico ao do «brasileiro Soares» - numa primeira fase, a origem modesta, a ida para o Brasil, o granjear de fortuna, e o regresso. Numa segunda, a aquisição de terras, a construção da casa nova, o casamento. Finalmente numa terceira, a infelicidade que, no caso de Soares o leva ao suicídio, no caso de Moreira ao divórcio. Magalhães conhecia, com toda a certeza, e muito bem, António da Silva Moreira e toda a sua história de vida. E conheceria também o seu genro, sobrinho e sucessor, cujo nome era justamente – adivinhem lá - Joaquim Soares, o mesmo nome do protagonista do Romance. Ficção e realidade de mãos dadas? Creio que sim.

José Augusto Maia Marques