Santo Lenho e o Terramoto de 1755


Santo Lenho e o Terramoto de 1755

Celebra-se ou a 3 de Maio ou a 14 de Setembro, e desde tempos imemoriais, a festa de Santa Cruz. Esta festa religiosa celebra a Exaltação de cristo vencedor da morte e do pecado pelo sangue derramado no alto da cruz. Para o Cristianismo a cruz é o símbolo maior de fé. É com os seus traços que nos benzemos do levantar até ao deitar. No Batismo o primeiro sinal de acolhimento à criança é o sinal-da-cruz traçado na sua fonte pelo Padre, Pais e Padrinhos, assinalando-a para sempre com a marca de Cristo. A cruz recorda o Cristo crucificado, o sacrifício de sua paixão, o seu martírio que nos deu a salvação. Ora na Terra da Maia existe desde há muitos séculos o Santo Lenho de Moreira, uma das mais conhecidas relíquias da verdadeiras cruz. Era já referida no testamento de Gonçalo Guterres, em 1085, sendo de admitir que tivesse vindo pouco antes do Oriente. Trata-se de um pequeno pedaço de madeira que se encontra encastoado num esplêndido Relicário, verdadeira jóia da Ourivesaria Portuguesa, representando uma cruz, em ouro e pedras preciosas. Na cruz a figura de Cristo e na base Anjos orantes. Ter-se-á perdido durante algum tempo, até que veio a ser encontrada em 1510 escondida por baixo da pedra de Ara. Esta redescoberta foi muito saudada pelo população, que tinha grande fé na relíquia.

Nas “Memórias Paroquiais” de 1758, o então Pároco de Moreira atribui à influência do Milagroso pedaço de madeira o facto de o Mosteiro e a freguesia não terem sofrido dano algum no tremor de terra de 1755.

 

Eis o excerto das “Memórias” em que o Pároco de então, o cura António José de Pinho, atribui ao Santo Lenho a proteção durante o grande sismo. Reza assim, vertido para português atual:

“Também se experimentou nesta Freguesia o espantoso terramoto do primeiro de novembro de mil e setecentos e cinquenta e cinco, com a mesma violência de impulsos que nas mais partes, porem não causou ruína alguma, o que os seus moradores atribuíram à prodigiosa relíquia do Santo Lenho que se venera há muitos séculos na Igreja do Mosteiro; e por virtude da mesma relíquia é tradição antiquíssima entre os moradores da Freguesia que nunca nela caiu raio, sendo muito contínuos nas Freguesias contíguas, tanto assim que caindo há muitos anos um raio no fim dos limites da Freguesia em uma árvore, queimou dela só a parte que ficava fora dos marcos da Freguesia, ficando a outra parte fresca e vigorosa, e por este respeito muitas pessoas das Freguesias vizinhas logo que vêm ameaços de grandes trovoadas fogem para dentro dos limites desta Freguesia de Moreira, e na festa principal do Santo Lenho que é a três de Maio, concorrem as cinquenta e duas Freguesias do Concelho da Maia; a sua celebridade (é tal que) as pessoas de maior distinção procuram ser juízes da festa”. 

Vendo a crença no efeito protetor da relíquia, não admira que o Mosteiro de Moreira fosse muito procurado, mesmo em peregrinação, por gentes das terras vizinhas, mormente pescadores de Matosinhos e lavradores de Vila do Conde e do interior, que se colocavam sob a proteção do Santo Lenho.

JAMM